quarta-feira, 12 de julho de 2017

A era listada





Num mundo que devora informação sem a digerir convenientemente, cada vez mais premeia aqueles que a escolhem para os outros. Neste mundo de tempo limitado e informação, dados, opiniões e ‘posts’ quase incomensuráveis, o aparecimento dos ‘rankings’ veio trazer uma espécie de listagem onde todos estão listados em qualquer lado, onde qualquer instituição está passível de ver o seu nome numa pauta para cujo exame não se candidatou e onde qualquer país, seleção nacional ou conjunto de alunos pode ficar catalogado com um dado valor que demorará tempo a desvincular.

Na Ciência Económica, a utilização e a justificação dos ‘rankings’ não é novidade. Desde os índices bolsistas até aos famosos ‘rankings’ das dívidas soberanas, rara é a realidade imune à tentação da ordenação. Se, por uma via, estamos habituados, desde os bancos da escola até ao desempenho desportivo nos campeonatos, a estudar ‘rankings’ porque os mesmos não hão-de aparecer para as demais realidades? Mas, por outra via, nas classificações dos campeonatos desportivos ou nas pautas escolares só aparecem os candidatos inscritos e no entanto em diversos ‘rankings’ económicos, empresariais ou industriais não é raro aparecer uma empresa ou uma entidade listada sem, aparentemente, os seus gestores terem sido abordados.

Perante este paradoxo, que em termos legais pode raiar às questões do direito à privacidade de dados, a explicação convencional, importada do lado de lá do Atlântico (muito mais familiarizados a olhar para o marcador do que para o campo ou a emocionarem-se com a dança dos números e depois com a agilidade dos atletas) tem três bases. A primeira base, muito discutida e discutível, assume que todos têm interesse em revelar dados, isto é, uma empresa, uma ‘holding’ ou um país ganha em toda a frente se for transparente, se revelar os seus valores e se os expuser à discussão pública. Pelo contrário, empresas, ‘holdings’ ou países de quem ninguém nada sabe são associadas a ditaduras ou a realidades paralelas ou subterrâneas. A segunda base, também muito discutida e muito discutível, pressupõe que todos os listados – tenham gosto ou não em estarem na lista – terão incentivos adicionais em melhorarem a sua posição após a publicação do ‘ranking’. A terceira base – e como as anteriores, muito discutida e discutível – assume que a dança de posições é de soma nula: o gosto que eu tenho por subir anula o aborrecimento que tens porque desceste.

No entanto, se ‘rankings’ multidimensionais – como o Índice de Desenvolvimento Humano ou os Índices de Transparência Fiscal ou de Perceção da Corrupção não angustiam muita gente nem promovem brados de alegria noutros tantos, já as reações postas em ‘rankings’ como os da Dívida Soberana ou os da FIFA e da UEFA não são tão passivas. A razão não é única mas tem duas orientações. A primeira é a da Responsabilização pelo Comum. Enquanto o IDH revela uma realidade de todos, partilhada por todos num país e em certa medida por todos os partidos, já nos ‘rankings’ sobre a Dívida Soberana é muito mais fácil atribuir vitórias ou derrotas a alguns. Logo, quanto mais lato for um Índice menos reativo ele é. A segunda orientação é de dinâmica emocional. Mudanças de posições no IDH do país podem ocorrer de ano para ano mas mais importantes são as mudanças ao longo das décadas. Já as mudanças nos mercados bolsistas ou nos rankings da FIFA e da UEFA ocorrem com muito maior frequência – o que interessa ao tempo mediático e a outros ritmos, como o do ciclo político.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

E depois do 13 de Maio?





O Papa Francisco veio a Fátima. Muito se escreverá sobre a sua passagem, marcando geralmente a década seguinte na qual não será crível que o Papa regresse a Fátima, considerando a média de uma viagem por cada 10 anos desde a primeira visita, a do Papa Paulo VI.
Nestes dias subsequentes, ainda a ‘quente’, retenho Sete palavras/Silêncios de Francisco, além do sucesso e da esperança de termos mais dois Santos Portugueses (Francisco e Jacinta Marto).
A primeira expressão é a da sobriedade de Francisco. Não estive no recinto e portanto assisti às Celebrações pela televisão. E pela televisão pareceu-me que Francisco veio como uma pessoa séria, como Peregrino religioso, não como Peregrino profano, ufano ou descomprimido. Veio tenso como qualquer um de nós quando vai ao médico. Não veio em excursão, veio em peregrinação.
A segunda expressão é a anafórica preferência de Francisco pela Periferia. A periferia, sem entrar na complexidade do termo epistemológico, é o espaço cinzento, onde o centro começa a deixar de ser centro, é o espaço de fronteira, é o espaço do limite, é o espaço dos muros. Francisco vaticinava no dia 12 que “seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros e venceremos todas as fronteiras, saindo em direção a todas as periferias, aí revelando a justiça e a paz de Deus”. Fátima é aquela ágora que não vive só com os Filhos, só com os católicos praticantes. Portanto, Fátima é aquele espaço de periferia também que melhor pode contagiar/irradiar para lá do muro.
A terceira expressão é o silêncio (que o mediatismo considerou longo) na chegada de Francisco à Capelinha. Francisco esteve vários minutos recolhido, de olhos fechados, diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima. O mundo apressado dos nossos dias considerou este silêncio longo. Os minutos publicitários das televisões consideraram-no de valor enorme. Mas Francisco mostra que tantas vezes o Silêncio é a melhor Oração. O encontro no indizível entre a Criatura e o Criador, o espaço de nudez, uma imagem de morte para o mundo e de Vida para Deus.
A quarta expressão é o reconhecimento de Maria como revolucionária. Uma revolução que só as Mães e quem Ama conseguem. Disse Francisco em Fátima “Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho”. No mundo que faz a guerra pelo terror, pelo barulho e na rua, Maria é a revolucionária que toca com ternura e com carinho. Vindo de uma das pátrias da Teoria da Libertação, não sendo estranho ao pensamento revolucionário sul-americano e tropical, Francisco reconhece em Maria Aquela que muda tudo com carinho e não com a explosão.
A quinta expressão é a do chicote no Templo. Se Maria revoluciona pelo carinho, Francisco pergunta se Maria é “A ‘bendita por ter acreditado’ sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas, ou então uma ‘santinha’ a quem se recorre para obter favores a baixo preço?”. Questão teológica, dirão alguns. O pior é que somos nós a respondermos e a caracterizar ou a caricaturizar Maria na nossa atitude de hoje perante os Próximos dos próximos Cem anos de Fátima.
A sexta expressão é a de recordar Maria como Mãe: “Temos Mãe” (na Homilia do dia 13) rejeitando a imagem de uma Hera ou de uma Diana pagãs “segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar”.
Finalmente, a sétima expressão é o equilíbrio. Francisco veio distinguir, salientar e definir o papel de Fátima na Igreja, de Maria no Evangelho e do Peregrino na Fé. Tornou claro aquilo que de tempos a tempos vem ficando toldado. “E no centro de tudo esteve e está o Senhor ressuscitado, presente no meio do seu povo na Palavra e na Eucaristia. Presente no meio de tantos doentes, que são protagonistas da vida litúrgica e pastoral de Fátima, como de cada santuário mariano.” Disse Francisco, no regresso.

domingo, 7 de maio de 2017

A Luz e a Sombras





Há uns anos, um selecionador europeu notou que havia grupos de jovens africanos debaixo dos postes de iluminação de uma capital africana. A primeira ideia seria a do tráfico ou a de outro tipo de associação pouco meritória. Na realidade, aqueles jovens, sem luz em casa, aproveitavam a iluminação pública para estudar.

Esta história mostra a importância do ‘efeito hotspot’. Em Economia, o efeito hotspot indica que tendemos a concentrar a atenção sobre aquilo que é iluminado e que está no nosso raio de alcance. Assim, não é de estranhar a concentração de Árvores de Interesse Público em concelhos com delegações dos Serviços Florestais, de candidaturas a financiamento comunitário bem sucedidas em espaços com consultoras com histórico de sucesso ou a concentração de Ministros e de Secretários de Estados em distritais com especial peso político (isto é, com iluminação hotspot).

Quando olhamos para a distribuição de uma variável num mapa (por exemplo, no mapa de Portugal), tendemos a encontrar ‘manchas de côr’: as concentrações destacadas a tonalidades mais escuras que se vão esbatendo à medida que observamos espaços com menores valores dessa variável. A esse fenómeno, chamamos autocorrelação espacial positiva. Uma variável com clara evidência de autocorrelação espacial positiva é a densidade demográfica.

No entanto, quando olhamos para o mesmo mapa - agora cobrindo uma outra variável - e encontramos pontos de concentração muito forte espalhados pelo território sem continuidade nos espaços mais contíguos temos o ’efeito hotspot’. Por isso, há concentração de dispositivos eletrónicos ou de cyber-utilizadores nos cafés com wi-fi ou nas varandas dos prédios das zonas universitárias.

Assim como o epifenómeno identifica os mega-eventos que acontecem num espaço uma vez por ano, o epicentro económico tende a ser um ‘hot spot’ que desenvolve de um modo intenso a economia dos locais imediatos mas que, como um eucalipto, tende a secar tudo em volta. Mas, como discuti recentemente num Seminário na Universidade de Milano-Bicocca, existe muita vida nas profundezas dos oceanos, isto é, em termos económicos, nos espaços de penumbra onde muitos sobrevivem nas sombras. Em termos de Economia laboral, o tema que aí discuti, fatores como a experiência, a idade certa, um passado de resistência mas também um certo brio individual, fazem com que nas profissões mais competitivas se consiga sobreviver longe dos holofotes, dos pódios, e do poder. Pilotos de Fórmula 1 como Andrea de Cesaris, Nick Heidfeld ou Martin Brundle são claros exemplos de homens que nunca ganhando uma corrida na F1 contaram muitas mais provas que outros pilotos que no entanto subiram ao lugar mais alto do pódio. Flores como as violetas ou as camélias crescem melhor nos espaços húmidos e sombrios.

Portanto, mesmo que não se possa estar debaixo da luz, existe a solução dada pelos Pink Floyd (em ‘Eclipse’): "There is no dark side of the moon really. Matter of fact it's all dark." Questão de Ótica. De espetro artístico, de palete política, ou de daltonismo.