segunda-feira, 3 de abril de 2017

Lições de Cork







A capacidade das empresas em criarem emprego (sobretudo de alto valor acrescentado) é uma das mais importantes externalidades sociais da atividade empresarial. Além de gerarem estímulos na qualidade dos produtos oferecidos, além de transmitirem mensagens indiciadoras de novas tendências comportamentais e de veicularem uma reordenação das nossas opções enquanto consumidores, as empresas têm a tal capacidade de alavancarem a vontade individual de colaboração em esforços mais eficazes, porque feitos em conjunto, porque feitos com a tecnologia apropriada e porque feitos com a organização devida.

Por isso, aplaude-se os estímulos ao bom empreendedorismo, mas muito mais a capacidade de atrair grupos industriais. Fui convidado pela Universidade de Cork (onde T. Boole foi um dos mais reputados professores) para lecionar num ciclo de seminários focado nos desafios da Economia Regional e nos Serviços Digitais. Esse ciclo decorreu na primeira quinzena de março deste ano. Além da partilha de alguns dos principais avanços da minha investigação publicada internacionalmente, tive oportunidade de contatar com informação privilegiada sobre a realidade sócio-económico irlandesa. Realidade muito estimulante para debate, não só dada a qualidade das taxas de crescimento irlandesas – o famoso “Tigre Celta” – mas também a vitalidade e a importância do Terceiro Setor bem como o paradoxo de os desportos amadores/galaicos serem muito mais assistidos e relevantes que os desportos profissionais.

Num dos debates, constatei um dado impressionante – o PIB irlandês cresceu no primeiro trimestre de 2017 quase 20%. Obviamente, este aumento corrigido/anualizado será reduzido mas contribuindo no mínimo para colocar a Irlanda como um dos campeões europeus de crescimento económico quando 2017 terminar. A razão para número tão impressionante? Teriam os consumidores irlandeses aberto os cordões à bolsa? Teria o governo irlandês aumentado os gastos? Teria o Brexit decorrente levado a um aumento do valor das exportações irlandesas? Não.

A resposta está no investimento. A Irlanda recebeu neste trimestre a deslocação de algumas das sedes de grandes holdings de software a nível mundial. O investimento aumentou não só no momento, como na antecipação de outros contratos, o que se traduziu num movimento consequente na bolsa nacional. Com esta deslocação, outras empresas aproveitaram o momento de comensalismo e foram atraídas pelos sinais que os “tubarões” deixaram. Logo, gerou-se um cenário de investimento contínuo que perdurará por anos. E - sim – estamos a falar da Irlanda que recentemente fora intervencionada pela Troika.

Logo, enquanto as nossas economias – quer a dos parques industriais/regionais/municipais até à do país, não conseguirem sair do pseudo-empreendedorismo de ‘ateliers de formação’ ou de ‘centros de dia’ distribuidores de pastas de papel com caneta eleitoralista, não conseguiremos desengripar o motor do ‘investimento’ – isto é, o motor dos gastos que fazemos para usufruir bem mais tarde – e continuaremos com ciclos de crescimento curtos. Curtos de prazo e curtos de vista.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Os Capitais de Abril







Uma das obras mais emblemáticas de Karl Marx é “O Capital”. Difundida sobretudo após a revisão de Engels, já Marx tinha morrido, tornou-se uma das referências da Política Económica do Direito Político de influência socialista, rapidamente após as primeiras edições. Conta-se que Lenine teria tido alguns dos seus esgotamentos após leituras desta (tríplice) obra densa.
Ultrapassando a celeuma idiossincrática envolvente assim como as leituras precipitadas ou enviesadas que a distância comportou, “O Capital” é uma obra naturalmente inserida na categoria da “Economia Clássica”, a par dos ‘Principles’ de Stuart Mill ou da ‘Political Economy’ de David Ricardo. Pois os economistas clássicos reconheciam enquanto capital – isto é, tudo que é depósito de Valor – como um fator essencial de produção, a par do Trabalho (isto é, a par da força transformadora do Homem no meio envolvente). Assim, a fórmula clássica “Produto é função de Capital e de Trabalho” era interpretada como o Esforço sendo proporcional à Reserva de Valor (Energia Potencial) combinado com Trabalho (Força motriz).
Desde esse Século XIX, novas formas de capital emergiram, a par de novas formas de trabalho. Atualmente, fala-se sobretudo também de Capital Humano (a valorização de cada um pelo Ensino e pelas Qualificações, quer ‘hard skills’ quer ‘soft skills’), de Capital Social (a valorização de cada um por pertencer a grupos sociais), de Capital Cultural (a valorização advinda por determinados padrões culturais) ou de Capital Político (a valorização dos contatos que se tem na agenda do iphone).
A valorização que atribuímos a cada Capital é variável em função da idade, das instituições envolventes, ou da realidade macroeconómica. Uma jarra do calcolítico é um caco para uns e uma preciosidade para outros. Um licenciado ou mestre vale hoje muito menos do que há trinta anos. Mas pertencer ao grupo certo pode valer muito na hora de ter determinado lugar. A criança valoriza mais o Capital Social do que o Capital Cultural, ao invés do cidadão com mais idade. Como o capital fundiário (a terra) vale hoje muito menos que bons depósitos a prazo. Antes a palavra honrada era um ativo, logo expressão de capital. Hoje, a aparência, a ilusão da petulância ou a pseudo-chamada para o ‘amigo’ tem maior cotação. Como se pode ver, nestes exemplos tão simples e tão inocentes, o capital que ontem valia tanto, hoje pode valer muito menos. Em contrapartida, o depósito de valor – logo, o capital – que ontem tão pouco valia, hoje pode valer muito mais. Coisas de capitais, inclusive capitais territoriais que às segundas-feiras valem tanto e às sextas-feiras tanta gente afugentam.
O “International Journal of Social Economics” vai publicar um artigo que co-assino com Teresa Pereira e Cristina Moreira, intitulado “THE IMPORTANCE OF NEW FORMS OF CAPITAL IN NONPROFIT ORGANIZATIONS – A CASE STUDY OF THE FAFE DELEGATION OF THE PORTUGUESE RED CROSS”. Neste artigo, inquirimos os colaboradores e voluntários da Cruz Vermelha de Fafe sobre a importância que dão às diversas expressões de capital. O resultado dos inquéritos distribuídos demonstrou que a par da relevância do Capital Financeiro, os inquiridos manifestaram uma importância saliente no Capital Social e no Capital Humano, como imprescindíveis para a sustentabilidade da organização mas também para a própria capacitação. Assim se demonstrou metodologicamente como os novos tesouros (isto é, as novas reservas de valor) já não são só os que se escondem na matéria. Porque, como Mateus escreveu, onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O endógeno e o exógeno







Na análise económica, ensinamos a distinção entre um estímulo exógeno (que parte de realidades que, só muito residualmente, podem ser alteradas pelos agentes recetores do estímulo) e um impulso endógeno (derivado das opções individuais de cada agente em análise). Assim, o efeito que sentimos relativamente à inflação é muito mais claramente identificado como exógeno (para nós) do que o desemprego ou os padrões de consumo.
Se estes efeitos acontecem sobre nós, também podem acontecer sobre os espaços. Um espaço sofre consequências exógenas quando impostas por ‘forças’ que em pouco mais de nada se importam com o referido espaço. O espaço sofre ‘políticas endógenas’ quando as consequências são derivadas pelas escolhas dos agentes desse mesmo espaço. Por exemplo, as teorias de Crescimento Endógeno assumem que os agentes impulsionadores se esforçam por produzir mais e por auferirem melhor nível de vida, recebendo assim parte do resultado desse esforço.
No entanto, é muito comum observarmos como as forças endógenas e exógenas andam por aí ao deus-dará. Sobretudo, no discurso político. Quando algo corre mal, foi uma força exógena – foi o destino, foi o Governo, foi o azar, foi o tempo, ou então, como recentemente se tornou moda – a culpa é do Benfica. Quando algo corre bem, é sempre mérito dos “nossos” – os do nosso bairro, os do nosso clube, os do nosso partido, os da nossa religião, os da nossa casa, os do nosso coração. Quando, em rigor, como a Economia nos ensina, desde o nosso nascimento até à nossa morte, somos feitos de escolhas e somos feitos por escolhas (a começar pela escolha da Mãe em nos dar a luz). Escolhas que tem sempre a sua parte de consequências endógenas (imputáveis a nós) e consequências exógenas (como dizia Sartre, o Inferno são os Outros).
Vai ser publicado no Journal of Iberian and Latin American History o meu trabalho intitulado “Port wine, Brazil, and the world economy: A time series analysis from 1756 to Brazilian independence”. Nesse trabalho, refuto algumas ‘tradições’ sobre a evolução do comércio de Vinho do Porto com o Brasil.
Geralmente, o Vinho do Porto teve um destino prioritário no Reino Unido e só uma parte residual era alocada ao Brasil (e a territórios sob administração portuguesa). Geralmente isto era explicado por ‘episódios endógenos’, como a inexistência de uma cultura de consumo do nosso Vinho no Brasil, o desinteresse/incúria dos administradores em solo brasileiro ou o empobrecimento da qualidade no transporte remoto. Hipóteses que desmistifiquei ao validar a importância das ‘forças exógenas’, como a evolução dos preços e das taxas de câmbio que favoreciam de sobremaneira o comércio com a Europa deste nosso produto que foi a principal exportação portuguesa até ao século XX.
Assim, se provou que sabendo gerir o comércio internacional, sabendo aproveitar a ‘força exógena das marés’, os barcos bem navegados chegam ao seu destino. Conclusão: escolham-se bons timoneiros e aprenda-se a aproveitar a energia das forças exógenas.