quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Os Capitais de Abril







Uma das obras mais emblemáticas de Karl Marx é “O Capital”. Difundida sobretudo após a revisão de Engels, já Marx tinha morrido, tornou-se uma das referências da Política Económica do Direito Político de influência socialista, rapidamente após as primeiras edições. Conta-se que Lenine teria tido alguns dos seus esgotamentos após leituras desta (tríplice) obra densa.
Ultrapassando a celeuma idiossincrática envolvente assim como as leituras precipitadas ou enviesadas que a distância comportou, “O Capital” é uma obra naturalmente inserida na categoria da “Economia Clássica”, a par dos ‘Principles’ de Stuart Mill ou da ‘Political Economy’ de David Ricardo. Pois os economistas clássicos reconheciam enquanto capital – isto é, tudo que é depósito de Valor – como um fator essencial de produção, a par do Trabalho (isto é, a par da força transformadora do Homem no meio envolvente). Assim, a fórmula clássica “Produto é função de Capital e de Trabalho” era interpretada como o Esforço sendo proporcional à Reserva de Valor (Energia Potencial) combinado com Trabalho (Força motriz).
Desde esse Século XIX, novas formas de capital emergiram, a par de novas formas de trabalho. Atualmente, fala-se sobretudo também de Capital Humano (a valorização de cada um pelo Ensino e pelas Qualificações, quer ‘hard skills’ quer ‘soft skills’), de Capital Social (a valorização de cada um por pertencer a grupos sociais), de Capital Cultural (a valorização advinda por determinados padrões culturais) ou de Capital Político (a valorização dos contatos que se tem na agenda do iphone).
A valorização que atribuímos a cada Capital é variável em função da idade, das instituições envolventes, ou da realidade macroeconómica. Uma jarra do calcolítico é um caco para uns e uma preciosidade para outros. Um licenciado ou mestre vale hoje muito menos do que há trinta anos. Mas pertencer ao grupo certo pode valer muito na hora de ter determinado lugar. A criança valoriza mais o Capital Social do que o Capital Cultural, ao invés do cidadão com mais idade. Como o capital fundiário (a terra) vale hoje muito menos que bons depósitos a prazo. Antes a palavra honrada era um ativo, logo expressão de capital. Hoje, a aparência, a ilusão da petulância ou a pseudo-chamada para o ‘amigo’ tem maior cotação. Como se pode ver, nestes exemplos tão simples e tão inocentes, o capital que ontem valia tanto, hoje pode valer muito menos. Em contrapartida, o depósito de valor – logo, o capital – que ontem tão pouco valia, hoje pode valer muito mais. Coisas de capitais, inclusive capitais territoriais que às segundas-feiras valem tanto e às sextas-feiras tanta gente afugentam.
O “International Journal of Social Economics” vai publicar um artigo que co-assino com Teresa Pereira e Cristina Moreira, intitulado “THE IMPORTANCE OF NEW FORMS OF CAPITAL IN NONPROFIT ORGANIZATIONS – A CASE STUDY OF THE FAFE DELEGATION OF THE PORTUGUESE RED CROSS”. Neste artigo, inquirimos os colaboradores e voluntários da Cruz Vermelha de Fafe sobre a importância que dão às diversas expressões de capital. O resultado dos inquéritos distribuídos demonstrou que a par da relevância do Capital Financeiro, os inquiridos manifestaram uma importância saliente no Capital Social e no Capital Humano, como imprescindíveis para a sustentabilidade da organização mas também para a própria capacitação. Assim se demonstrou metodologicamente como os novos tesouros (isto é, as novas reservas de valor) já não são só os que se escondem na matéria. Porque, como Mateus escreveu, onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O endógeno e o exógeno







Na análise económica, ensinamos a distinção entre um estímulo exógeno (que parte de realidades que, só muito residualmente, podem ser alteradas pelos agentes recetores do estímulo) e um impulso endógeno (derivado das opções individuais de cada agente em análise). Assim, o efeito que sentimos relativamente à inflação é muito mais claramente identificado como exógeno (para nós) do que o desemprego ou os padrões de consumo.
Se estes efeitos acontecem sobre nós, também podem acontecer sobre os espaços. Um espaço sofre consequências exógenas quando impostas por ‘forças’ que em pouco mais de nada se importam com o referido espaço. O espaço sofre ‘políticas endógenas’ quando as consequências são derivadas pelas escolhas dos agentes desse mesmo espaço. Por exemplo, as teorias de Crescimento Endógeno assumem que os agentes impulsionadores se esforçam por produzir mais e por auferirem melhor nível de vida, recebendo assim parte do resultado desse esforço.
No entanto, é muito comum observarmos como as forças endógenas e exógenas andam por aí ao deus-dará. Sobretudo, no discurso político. Quando algo corre mal, foi uma força exógena – foi o destino, foi o Governo, foi o azar, foi o tempo, ou então, como recentemente se tornou moda – a culpa é do Benfica. Quando algo corre bem, é sempre mérito dos “nossos” – os do nosso bairro, os do nosso clube, os do nosso partido, os da nossa religião, os da nossa casa, os do nosso coração. Quando, em rigor, como a Economia nos ensina, desde o nosso nascimento até à nossa morte, somos feitos de escolhas e somos feitos por escolhas (a começar pela escolha da Mãe em nos dar a luz). Escolhas que tem sempre a sua parte de consequências endógenas (imputáveis a nós) e consequências exógenas (como dizia Sartre, o Inferno são os Outros).
Vai ser publicado no Journal of Iberian and Latin American History o meu trabalho intitulado “Port wine, Brazil, and the world economy: A time series analysis from 1756 to Brazilian independence”. Nesse trabalho, refuto algumas ‘tradições’ sobre a evolução do comércio de Vinho do Porto com o Brasil.
Geralmente, o Vinho do Porto teve um destino prioritário no Reino Unido e só uma parte residual era alocada ao Brasil (e a territórios sob administração portuguesa). Geralmente isto era explicado por ‘episódios endógenos’, como a inexistência de uma cultura de consumo do nosso Vinho no Brasil, o desinteresse/incúria dos administradores em solo brasileiro ou o empobrecimento da qualidade no transporte remoto. Hipóteses que desmistifiquei ao validar a importância das ‘forças exógenas’, como a evolução dos preços e das taxas de câmbio que favoreciam de sobremaneira o comércio com a Europa deste nosso produto que foi a principal exportação portuguesa até ao século XX.
Assim, se provou que sabendo gerir o comércio internacional, sabendo aproveitar a ‘força exógena das marés’, os barcos bem navegados chegam ao seu destino. Conclusão: escolham-se bons timoneiros e aprenda-se a aproveitar a energia das forças exógenas.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Sobre os Grandes da nossa terra



A relevância dos rankings de empresas

Os valores divulgados pelo semanário “A Voz de Trás-os-Montes” trazem uma discussão global para a realidade transmontana. A divulgação de ‘rankings’ de empresas baseados em indicadores de desempenho económico-financeiro não é novidade a uma escala global (onde os mesmos rankings são disponibilizados diariamente e com base em informação originária dos mercados bolsistas) nem a uma escala nacional (onde diversas publicações tem realizado um esforço próprio). No entanto, a novidade neste caso está na divulgação destes rankings a partir de unidades com algum tipo de sede/atividade na região transmontana (mais propriamente, dentro dos distritos de Vila Real e Bragança).
Os rankings de empresas são ordenações de casos individuais em função de uma dimensão ou de uma combinação matemática de variáveis observadas para os mesmos casos individuais. No fundo, são uma espécie de tabela classificativa que, no lugar de ter equipas de futebol, tem empresas. Assim como nos campeonatos desportivos os adeptos gostam de ver a sua equipa nos lugares cimeiros, também nos rankings empresariais os agentes investidores, gestores, colaboradores ou patrocinadores gostam de ver que os seus esforços foram ‘relativamente’ reconhecidos, colocando a sua empresa ou as empresas do seu concelho ou do seu cabaz de fornecimentos bem alocadas nos rankings. Adicionalmente, empresas bem posicionadas terão um elemento adicional (ainda que, na prática, marginal) de agilização de novos financiamentos e de alavancagem das próprias atividades no futuro próximo.

Uma leitura – os mais dos mais, setores, idades, e localização

O ranking agora divulgado destaca as seguintes unidades empresariais. No Volume de Negócios oficializado para o exercício de 2015, o Top-3 é composto por Faurécia (Material Automóvel, em Baçal, Bragança), Gold Energy (Equipamentos energéticos, em Vila Real) e pelo Centro Hospitalar de TMAD (Setor da Saúde, em Lordelo, Vila Real). Estas unidades revelaram um volume de negócios superior, individualmente, a 100 milhões de euros. O Top-3 por Resultado Líquido é composto por Faurécia, NorScut (Concessionária de Auto-Estradas, em Lixa do Alvão, Vila Pouca de Aguiar) e por VMPS (a sucedânea da Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas), com resultados superiores, individualmente, a 8 milhões de euros. Em termos de número de colaboradores, o Top-3 é composto pelo Centro Hospitalar de TMAD, pela Faurécia e pela VMPS, individualmente, com mais de 300 colaboradores. Destas 500 empresas de referências, as mais antigas segundo a fonte dos dados são a Sociedade Agrícola da Romaneira (Alijó), a Empresa Alfandeguense (Transportes) e a Quinta do Crasto (Gouvinhas), com mais de 90 anos de atividade.

Benefícios e Desafios para a região
O que ganhamos nós – a maioria de nós - com estas empresas, além de sermos consumidores dos seus produtos ou utentes dos seus serviços?
As grandes empresas sempre foram os principais agentes de propulsão da inovação a nível mundial. Mesmo as soluções a Silicon Valley, de empreendedorismo de garagem, só atingiram a maturidade de benéficas para a economia global quando se associaram com os “grandes”. A disponibilidade de recursos próprios, a presença de departamentos específicos de qualidade, de análise dos segmentos de criação e distribuição de valor, bem como a robustez das suas estruturas financeiras tem justificado o seu papel pioneiro na definição de novas práticas de gestão, na introdução de novos produtos nos mercados regionais e na alteração das dinâmicas de negociação e de influências.
No entanto, até aqui estivemos numa análise ‘fechada’, isolando/transmontanizando a observação. Por exemplo, se olharmos para o país, a Faurécia ocupa a 93ª posição no ranking das maiores empresas portuguesas. Esta comparação mostra uma realidade bem complexa que, no lugar de deprimir o esforço conjunto de empresários, autarcas, investidores e colaboradores deve levá-los a um desafio tripartido.
O primeiro desafio prende-se com a necessidade de, em permanência, as grandes empresas da região procurarem a internacionalização, o alcance de mercados mais exigentes e de práticas modernizadas. O segundo desafio relaciona-se com a gestão desse esforço. Se é bom ser exigente, não é bom ser esgotável. O esforço das unidades produtivas da região deve ser reconhecido – como A Voz de Trás-os-Montes está a fazer e como as Associações Empresariais e Comerciais da região devem fazer melhor – condicionado à região. Não faz sentido comparar/exigir/pedir uma realidade de internacionalização das empresas locais como se exige a uma Petrogal ou a Jerónimo Martins. Finalmente, a região deve pedir que as suas grandes empresas sejam fonte de receitas fiscais para os espaços, que criem emprego qualificado, que reservem uma quota desse emprego para os residentes locais e ainda que manifestem expressiva responsabilidade social nos espaços envolventes.