domingo, 10 de setembro de 2017

Mercados patrióticos



A Liga Inglesa de 2018/2019 vai encurtar a janela de transferências de importação. Isto significa que os clubes ingleses terão de fechar os negócios relativos a contratação de novos jogadores antes do apito inicial do primeiro jogo agendado para aquela época. No entanto, muito pouco ainda foi definido em termos de exportação que continuará a ser permitida dentro das regras dos mercados adquirentes de talentos britânicos. Na prática, faz-se aquilo que tantas vezes a Inglaterra tem feito e- curiosamente – com mais prejuízos para a generalidade dos ingleses do que propriamente com benefícios líquidos: os entraves à importação.

Quando a Inglaterra, em meados do Século XIX, decidiu barrar/dificultar a importação da maquinaria germânica, que chegava aos portos britânicos com a reputação de fiável e duradoura, usou de várias ferramentas – desde decretos reais até vandalização. Foi nesse período que surgiu o rótulo ‘Made in…Germany’ com intenções xenófobas que visavam encarecer a aquisição de material alemão com custos de depreciação social. O problema é que virou-se o feitiço contra o feiticeiro – e o rótulo depreciativo acabou, na prática, por se transformar num slogan mediático que acelerou a identificação das importações vindas da Alemanha e consequentemente a sua aquisição pelos pequenos industriais e clientes domésticos ingleses. Como vários autores de então comentavam, o patriotismo é mais fácil de vingar nos campos de batalha do que nas casas dos soldados.

Dado o peso económico do mercado inglês no mundo do futebol, sobretudo em termos de folha salarial e de negociação dos direitos televisivos, a colocação de entraves de janela temporal vai, na prática, fazer render ainda mais o negócio daqueles que estão dispostos a alargar as barreiras para quem está disposto a pagar. Já que não vai ser tão fácil esperar pelos dias finais de agosto para o encerramento das contratações, o valor a pagar pela observação e agenciamento dos jogadores deve subir claramente. Os ‘Managers’ pensarão – queremos os melhores jogadores quanto antes! E por isso, toda a equipa de scouting espalhada pelo mundo vai exigir compensações adequadas pela descoberta mais cedo do maior diamante – polido ou em bruto. Os rumores terão rotação mais acelerada, os treinadores ingleses uma maior definição dos plantéis em perspetiva e a imprensa da especialidade terá maiores certezas na edição das revistas de lançamento da época desportiva.

E o que ficará para as restantes ligas? Ligas igualmente poderosas como a Espanhola ou a Italiana na prática terão efeitos pouco significativos. Os grandes clubes procurarão assegurar as melhores aquisições quantos antes como tem sido até agora, pois, além da pressão do agenciamento e da instabilidade dos rumores haverá adicionalmente a certeza de que uma Liga importante fechará o seu mercado de aquisições mais cedo. Os ‘bons jogadores’ sobrantes da Liga inglesa curiosamente ficarão a perder – nada pior no jogo da reputação ter fama de ‘admissível’ e depois não ser admitido. Vários estudos no campo da Teoria dos Jogos e na Economia Experimental tem mostrado como este tipo de situações leva a uma desvalorização significativa do bem ou serviço em causa que pode cair para mercados terciários. E é aqui que entra Portugal, que poderá ficar a ganhar com as ‘pechinchas’ – jogadores com nível de Liga Milionária mas que, por mau agente, mau tempo ou má sorte, não conseguiram inscrição na Liga desejada, no devido tempo.

Afinal, quando a lotação de um bar está no limite máximo, existirá sempre não muito longe algum outro disposto a servir um café.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Quantas palmas vão bater em cada comício?




Uma das fórmulas mais estudadas na gestão da carteira de investimentos de risco é a fórmula de Kelly. Esta fórmula indica que em situações arriscadas devemos apostar mais se esperamos um retorno maior ou se a probabilidade de sucesso também for maior.

No entanto, está provado que esta fórmula conduz muito depressa a ficarmos milionários ou a ficarmos sem nada. Como leva a que as pessoas invistam muito quando estão cheias de confiança, faz com que muito se perca quando se aposta no cavalo errado, na ação errada, ou na ‘odd’ incorreta.

Os gestores prudentes usam mecanismos de desconto que fazem com que a probabilidade de sucesso não pareça tão alta nem o retorno se afigure tão generoso. Os gestores ‘all-in’ apostam tudo e no fim pedem a nacionalização do banco.

Dada a proximidade das campanhas autárquicas, este problema coloca-se a cada eleitor. E se existe uma questão que vem tirando o sono a muitas pessoas é “Quantas palmas devo bater no comício do Candidato A?” e/ou “Quantas palmas devo bater no comício do Candidato B?” Ou Candidato C, D e E?

Pois bem, se a confiança na vitória do A for grande e o retorno que espera (por exemplo, uma nomeação, uma assessoria, ou um lugar de quadro) for também grande, deve apostar muito. Deve bater muitas palmas no comício do A, deve levar bombos e famelga, até deve organizar a campanha dele. Obviamente, sobrar-lhe-ão poucas palmas para o candidato B, para o C, ou para o D.

Mas se a confiança na vitória do A for baixa e/ou se não esperar grande coisa das promessas dele (ou dela), então deve bater poucas palmas no comício do A. Não vá colocar todas as fichas na casa errada e sair-lhe a do lado. Aí, como bom investidor que não coloca os ovos no mesmo cesto, deve guardar umas palminhas para outros candidatos: comece por guardar algumas para os da sua cor política nos concelhos vizinhos, depois para os da vizinhança ideológica do seu concelho, e por fim, aposte às cegas algumas palmas. Por vezes, as gerigonças ganham, o Tondela empata, e o burro cansado chega ao fim na corrida da Almodena.

O problema com esta fórmula é que depressa ficará milionário em termos políticos, colecionando um excelente capital político, ou então ficará um pária e terá de procurar alojamento político, camarário ou até social nos territórios vizinhos.

Na realidade, como tenho vindo a analisar, as eleições mexem com as migrações a nível europeu. E se em anos de eleições normais a taxa de emigração abranda, já dois anos depois, com as nomeações feitas e alguns contratos resolvidos, a emigração tende a aumentar. Porque uma das belezas da vida eleitoral democrática é a de gerir ciclos de sonho e de esperança, intercalando-os com os de desilusão e deceção. Afinal, há ciclos políticos nas migrações. Para lá, das migrações dos lugares de vereação, nomeação e assessoria.

Portanto, quantas palmas vão bater em cada comício?

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A era listada





Num mundo que devora informação sem a digerir convenientemente, cada vez mais premeia aqueles que a escolhem para os outros. Neste mundo de tempo limitado e informação, dados, opiniões e ‘posts’ quase incomensuráveis, o aparecimento dos ‘rankings’ veio trazer uma espécie de listagem onde todos estão listados em qualquer lado, onde qualquer instituição está passível de ver o seu nome numa pauta para cujo exame não se candidatou e onde qualquer país, seleção nacional ou conjunto de alunos pode ficar catalogado com um dado valor que demorará tempo a desvincular.

Na Ciência Económica, a utilização e a justificação dos ‘rankings’ não é novidade. Desde os índices bolsistas até aos famosos ‘rankings’ das dívidas soberanas, rara é a realidade imune à tentação da ordenação. Se, por uma via, estamos habituados, desde os bancos da escola até ao desempenho desportivo nos campeonatos, a estudar ‘rankings’ porque os mesmos não hão-de aparecer para as demais realidades? Mas, por outra via, nas classificações dos campeonatos desportivos ou nas pautas escolares só aparecem os candidatos inscritos e no entanto em diversos ‘rankings’ económicos, empresariais ou industriais não é raro aparecer uma empresa ou uma entidade listada sem, aparentemente, os seus gestores terem sido abordados.

Perante este paradoxo, que em termos legais pode raiar às questões do direito à privacidade de dados, a explicação convencional, importada do lado de lá do Atlântico (muito mais familiarizados a olhar para o marcador do que para o campo ou a emocionarem-se com a dança dos números e depois com a agilidade dos atletas) tem três bases. A primeira base, muito discutida e discutível, assume que todos têm interesse em revelar dados, isto é, uma empresa, uma ‘holding’ ou um país ganha em toda a frente se for transparente, se revelar os seus valores e se os expuser à discussão pública. Pelo contrário, empresas, ‘holdings’ ou países de quem ninguém nada sabe são associadas a ditaduras ou a realidades paralelas ou subterrâneas. A segunda base, também muito discutida e muito discutível, pressupõe que todos os listados – tenham gosto ou não em estarem na lista – terão incentivos adicionais em melhorarem a sua posição após a publicação do ‘ranking’. A terceira base – e como as anteriores, muito discutida e discutível – assume que a dança de posições é de soma nula: o gosto que eu tenho por subir anula o aborrecimento que tens porque desceste.

No entanto, se ‘rankings’ multidimensionais – como o Índice de Desenvolvimento Humano ou os Índices de Transparência Fiscal ou de Perceção da Corrupção não angustiam muita gente nem promovem brados de alegria noutros tantos, já as reações postas em ‘rankings’ como os da Dívida Soberana ou os da FIFA e da UEFA não são tão passivas. A razão não é única mas tem duas orientações. A primeira é a da Responsabilização pelo Comum. Enquanto o IDH revela uma realidade de todos, partilhada por todos num país e em certa medida por todos os partidos, já nos ‘rankings’ sobre a Dívida Soberana é muito mais fácil atribuir vitórias ou derrotas a alguns. Logo, quanto mais lato for um Índice menos reativo ele é. A segunda orientação é de dinâmica emocional. Mudanças de posições no IDH do país podem ocorrer de ano para ano mas mais importantes são as mudanças ao longo das décadas. Já as mudanças nos mercados bolsistas ou nos rankings da FIFA e da UEFA ocorrem com muito maior frequência – o que interessa ao tempo mediático e a outros ritmos, como o do ciclo político.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

E depois do 13 de Maio?





O Papa Francisco veio a Fátima. Muito se escreverá sobre a sua passagem, marcando geralmente a década seguinte na qual não será crível que o Papa regresse a Fátima, considerando a média de uma viagem por cada 10 anos desde a primeira visita, a do Papa Paulo VI.
Nestes dias subsequentes, ainda a ‘quente’, retenho Sete palavras/Silêncios de Francisco, além do sucesso e da esperança de termos mais dois Santos Portugueses (Francisco e Jacinta Marto).
A primeira expressão é a da sobriedade de Francisco. Não estive no recinto e portanto assisti às Celebrações pela televisão. E pela televisão pareceu-me que Francisco veio como uma pessoa séria, como Peregrino religioso, não como Peregrino profano, ufano ou descomprimido. Veio tenso como qualquer um de nós quando vai ao médico. Não veio em excursão, veio em peregrinação.
A segunda expressão é a anafórica preferência de Francisco pela Periferia. A periferia, sem entrar na complexidade do termo epistemológico, é o espaço cinzento, onde o centro começa a deixar de ser centro, é o espaço de fronteira, é o espaço do limite, é o espaço dos muros. Francisco vaticinava no dia 12 que “seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros e venceremos todas as fronteiras, saindo em direção a todas as periferias, aí revelando a justiça e a paz de Deus”. Fátima é aquela ágora que não vive só com os Filhos, só com os católicos praticantes. Portanto, Fátima é aquele espaço de periferia também que melhor pode contagiar/irradiar para lá do muro.
A terceira expressão é o silêncio (que o mediatismo considerou longo) na chegada de Francisco à Capelinha. Francisco esteve vários minutos recolhido, de olhos fechados, diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima. O mundo apressado dos nossos dias considerou este silêncio longo. Os minutos publicitários das televisões consideraram-no de valor enorme. Mas Francisco mostra que tantas vezes o Silêncio é a melhor Oração. O encontro no indizível entre a Criatura e o Criador, o espaço de nudez, uma imagem de morte para o mundo e de Vida para Deus.
A quarta expressão é o reconhecimento de Maria como revolucionária. Uma revolução que só as Mães e quem Ama conseguem. Disse Francisco em Fátima “Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho”. No mundo que faz a guerra pelo terror, pelo barulho e na rua, Maria é a revolucionária que toca com ternura e com carinho. Vindo de uma das pátrias da Teoria da Libertação, não sendo estranho ao pensamento revolucionário sul-americano e tropical, Francisco reconhece em Maria Aquela que muda tudo com carinho e não com a explosão.
A quinta expressão é a do chicote no Templo. Se Maria revoluciona pelo carinho, Francisco pergunta se Maria é “A ‘bendita por ter acreditado’ sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas, ou então uma ‘santinha’ a quem se recorre para obter favores a baixo preço?”. Questão teológica, dirão alguns. O pior é que somos nós a respondermos e a caracterizar ou a caricaturizar Maria na nossa atitude de hoje perante os Próximos dos próximos Cem anos de Fátima.
A sexta expressão é a de recordar Maria como Mãe: “Temos Mãe” (na Homilia do dia 13) rejeitando a imagem de uma Hera ou de uma Diana pagãs “segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar”.
Finalmente, a sétima expressão é o equilíbrio. Francisco veio distinguir, salientar e definir o papel de Fátima na Igreja, de Maria no Evangelho e do Peregrino na Fé. Tornou claro aquilo que de tempos a tempos vem ficando toldado. “E no centro de tudo esteve e está o Senhor ressuscitado, presente no meio do seu povo na Palavra e na Eucaristia. Presente no meio de tantos doentes, que são protagonistas da vida litúrgica e pastoral de Fátima, como de cada santuário mariano.” Disse Francisco, no regresso.